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SACANAGEM DO VOVÔ BILÚ

 

 

 

Sou apaixonado por bugigangas eletrônicas, principalmente aquelas com efeitos especiais luminosos. Além disto, já observara o efeito lúdico que tais artefatos provocavam nos meus netos – Fernandinho, cinco, e Isabela, dois e meio – em detrimento de presentes mais caros e sofisticados.

 

Assim é que, durante um happy hour com amigos, num botequim popular, eis que se aproxima um chinês com sua bandeja de quinquilharias mágicas.

 

Entre miríades de tentações, me atraíram, particularmente, um peixinho de borracha ou plástico, de formas pneumáticas, vermelho com detalhes amarelos, e um broche branco em formato de estrela com estrelinhas menores nele inseridas.

 

Acrescente-se que a um toque sutil na cabeça do peixe, este emitia uma luz azul tremelicante, que, combinada às cores do pequeno teleósteo, resultava num conjunto harmonioso. Quanto ao broche, bastava um discreto giro na mini-bateria existente no seu reverso, para que as estrelinhas começassem a pisca-piscar.

 

Eureka!, exclamei, depois de exaustiva e vantajosa negociação com o vendedor. Eis um mimo que os petizes vão a-d-o-r-a-r. Ato contínuo, sem reprimir a minha ansiedade, telefonei para minha filha. Atendeu-me Fernandinho, ao qual descrevi os acontecidos, marcando hora, data e local para a entrega da prenda, posto que sua excitação crescera de forma exponencial à medida que ouvia o relato. Fi-lo saber, portanto, que no domingo seguinte atingiríamos tal desiderato.

 

No dia em questão, razões de ordem doméstico-logísticas retardaram o nosso encontro, pelo que preenchi o inesperado e benfazejo lapso de tempo, me convidando para opíparo repasto num restaurante de escol.

Ocorre que, já no bar do supracitado recinto, enquanto degustava capitoso e encorpado tinto, um movimento involuntário fez tremeluzir o gnostomado, que acomodara no bolso da minha camisa. O feérico espetáculo atraiu, imediatamente à minha mesa, maitres, sommeliers, garçons e clientes, alvoroçados em saber onde, quando e por quanto poderiam adquirir tal preciosidade.

 

Ora, ora, me comunicaram as minhas sinapses: eis uma aplicação utilitária inesperada – associada ao aspecto lúdico – quando se quiser chamar a atenção de um modo discreto e elegante. E, sem mais delongas, testei a minha tese no salão de almoço, obtendo resposta positiva em 100 % dos casos.

 

A parte mais difícil foi explicar aos dois peraltas que, frente a novel descoberta, a entrega da mercadoria seria adiada até que eu voltasse a me encontrar com o mercador chinês.

 

Fernandinho, puto dentro da roupa, expressou a sua decepção através de enfáticos e bem colocados turpilóquios, a mim dirigidos. Isabela, embora não tenha a mesma proficiência no vernáculo, fez-lhe coro por meio de locuções onomatopaicas explosivas.

 

Confesso não lhes ter entendido a indignação, já que não alcançaram o meu gesto pedagógico, ensinando-lhes o princípio do adiamento do prazer, interpretando-o como uma sacanagem do vovô Bilu.    

 

 

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