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A MOÇA DO SONHO

 

(Homenagem a Edu Lobo)

Palavras, palavras, diria McBeth (W. Shakespeare, King Lear)

 

 

Apolo e Afrodite estavam apaixonados. Não obstante, significarem, um para o outro, apenas uma voz e uma imagem. Isto, porque Zeus, num dos seus contumazes acessos de fúria, proibira-os de um contato carnal durante certo tempo, para puni-los de algo do qual nem ele mais se lembrava. E, igualmente, esquecera da transitoriedade da punição.

 

 

Mas a troca de missivas, prenhes de poéticas declarações e juras de amor incomensurável, sublime e infinito trazia aos amantes a ilusão de uma paixão real e plena, ilusão despercebida pelos enamorados, posto que os sentimentos eram demasiado reais. E assim prosseguiam num contínuo intercâmbio de emoções, palavras e oferendas.

 

Um dia, mais por implicância do que por veraz necessidade, incumbe Zeus a Apolo de realizar uma missão. Missão menor, diga-se, indigna de um deus, melhor cumprida seria por um semideus ou alguma entidade inferior na seleta hierarquia olímpica.

 

Fosse como fosse, teria Apolo que se deslocar, por breve lapso, a uma distância pouco maior do que a que o separava da amada. Surpreendeu-se, pois, Afrodite, ao receber das dadivosas mãos do diligente Cupido, dramática epístola de Apolo, em que as palavras expressavam emoções tão intensas, tão profundo sofrimento, tão exacerbados vazios, dores e solidão, que mais pareciam uma pungente despedida. Como se ele fosse deixar – e para sempre – os domínios do Olimpo. Como se Zeus os obrigasse a guardar absoluto silêncio.Como se ao viajor faltassem os múltiplos e mágicos recursos daquele reino da mitologia, das metáforas, das fantasias.

 

Decretado por Apolo o prévio e obrigatório silêncio restou à Afrodite procurar decifrar tão instigante enigma. E por mais que perscrutasse em seu coração e mente, nada fazia sentido, embora tudo fosse possível.

 

Assim, leitor amável, concito-vos a perquirir as dúvidas de Afrodite – ou perfilhá-las como vossas –, eis que os amantes jamais se reencontraram nem mesmo na eternidade. No fundo, bem no fundinho do seu coração, Afrodite às vezes sente – mais do que raciocina –, perplexa, o paradoxo de sofrer tão realmente por uma ilusão, de perder o que nunca teve.

 

*

 

Esta comovente história de amor infinito e de paixão desvairada não consumados contou-m’a uma bela senhora que entrevistei numa longínqua e nostálgica tarde em que eu então estudante de medicina – a encontrei, internada num hospital psiquiátrico. Seu nome: Afrodite.

 

PS:Ah! E o porquê me lembrei deste relato tão remoto? Perguntem ao Edu  

 

 

 
 


 


 


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