Prólogo
Desde
há muito
que Fernandinho e Isabela, meus netos,
costumam encenar o
espetáculo
do crescimento.
Não,
leitor ingênuo,
não se trata
daquelas parlapatices e platitudes repetidas ad nauseam
pelo
“nosso
guia” (apud Elio
Gaspari). Refiro-me à liberação do excesso
de energia
acumulada
pelos petizes,
traduzida por acaloradas manifestações de júbilo,
discussões e
desvarios,
que ocorrem com
pontualidade britânica, e que, misteriosamente, cessam em
média duas horas
depois. Enfim,
ligeiro surto
de bagunça,
que
minha filha
alcunhou de “a hora do espanto”.
Vai daí que no domingo passado minha
herdeira telefonou, dizendo que os meus gremlins de estimação
queriam porque queriam visitar o vovô Bilu, pelo que argüia se eu
estaria disponível. Ante a minha aquiescência, me informou que chegariam
em meia hora. By the way, comentou que o marido viria buscá-los
duas ou três horas depois.
Sendo eu um aprendiz lento, porém
educável, só percebi a ameaça potencial dez minutos após. Duas ou três
horas sem o provedor, os infantes protagonizando “a hora do
espanto”, domingo. Não, não combinava. Olhei o relógio: tinha vinte
minutos para a reversão de expectativas. Cáspite! Apelei então para a
minha assaz reconhecida criatividade e... Eureka! Lembrando que a melhor
defesa é o ataque, logo, logo, tomei a iniciativa e passei a traçar
táticas e estratégias para enfrentar a hora da verdade.
Britanicamente na hora aprazada, a
campainha tocou, me provocando uma certa sensação de frio no estômago.
Mas logo me recuperei. Ora, quem já adestrou o Tiny, nosso imenso
dogue alemão, amestra netos. É tudo a mesma coisa, segredou-me o meu
diálogo interno. Restaurada a auto-estima, aprestei-me em recebê-los.
Após efusivas demonstrações de amor
explícito, na linguagem dos beijos e abraços, sublinhando entusiásticas
expressões verbais – vovô Bilu, que saudades, nós te amamos etc, etc –,
o primeiro metacomentário de Fernandinho, 6-7 anos, me fez piscar o
alerta amarelo, demonstrando quão efêmera poderia ser a minha
autoconfiança: “Vovô Bilu, seu novo carro seria um clone do carro da
mamãe?” E dispararam incontinenti para o local do crime (meu
escritório), dispostos a dele se apossarem. Do continente e do conteúdo!
Hom’essa! Um trainer em Programação
Neurolingüística, certificado em hipnose ericksoniana e Feldenkrais, um
master coach aprovado cum lauda, entre inúmeras
titulações, intimidar-se-ia com as invasões bárbaras dos peraltas? Mais:
a um exímio personal trainer de canis familiaris causaria
mossa o afã dos peralvilhos? Data vênia! Por quem sois? Se rápido
pensei, mais rápido agi. Antecipando-me por uma porta lateral
barrei-lhes a investida e proclamei o ucasse imperial: “Hoje vamos
brincar de adulto, para aprender responsabilidade, independência e
outras matérias afins”.

Intermezzo
Paralisados pela inesperada
quebra do estado,
logo se fizeram expectantes, aguardando instruções. A Fernandinho determinei que recolhesse imediatamente
folhas numeradas recém imprimidas e as
ordenassem de forma decrescente. Ainda tentou argumentar sobre as dificuldades
da empreitada, mas
após perfunctórias
explicações
– em que
lhe afirmei congruentemente que possuía competência
para tal –,
dispôs-se a fazê-lo sem maiores polêmicas.
Á Isabela, 3 e meio, coube retirar clipes
coloridos de um
recipiente
e transferi-los para uma
pirâmide
magnética, sendo
antes
obrigado a esclarecer
o significado de “clipes”,
o quê era
uma pirâmide, o
conceito
de “magnético”, e
onde
se encontravam tais
artefatos.
Imprescindível
também
realizar um rápido treinamento
em serviço
para internalizar o
procedimento, o que fi-lo duas vezes, usando o método
de Bateson com os
golfinhos,
associado à
técnica
de Marins e colaboradores na amestragem de
dogues
alemães.
Antes de prosseguir, atento leitor,
indispensável se torna enfatizar – como
algures explicitado – que estas tarefas e
ações tinham como escopo familiarizar os petizes com noções de
independência, capacidade de improvisação, o princípio do adiamento do
prazer, organização & métodos, treinamento de responsabilidade etc, etc.
Em outras palavras: iam sozinhos buscar objetos e recolocavam-nos em
seus lócus de origem, aprendiam a honrar compromissos (os
horários estabelecidos para cada ação eram fielmente cumpridos de parte
a parte) e, sobretudo, vivenciavam que o novo era o rotineiro ainda não
descoberto e que poderia ser fonte de prazeres, além de ressignificar
problemas, substituindo-os por desafios excitantes. Redundante e tedioso
seria afirmar que as instruções eram suficientemente eficazes e isentas
de apontadores de precisão, isto é, de padrões do metamodelo da
linguagem.
Diga-se que cada incumbência era
imediatamente seguida por uma outra, geralmente de categoria diversa, a
fim de estimular diferentes áreas dos pequeninos córtices cerebrais (e
confesso, algo constrangido, para que não tivessem tempo de pensar em
alguma besteira) e, portanto, não dispersassem o foco de atenção. Assim
é que, a folhas tantas, Isabela apossou-se de uma andrógina lanterna –
eis que permitia iluminação tradicional e fluorescente – sob justos
protestos do primogênito, posto que fiel depositário da mesma, segundo
pretérito arbítrio do vovô Bilu.
Antes
que
se intensificasse o contencioso,
o alhures referido vovô
Bilu designou o reclamante para novel missão: trazer a enorme lanterna
de pescaria e
camping, acoitada no
quarto
do sábio geronte. A
bem
da verdade, vovô
Bilu detesta ambas as atividades por considerá-las,
respectivamente, antiecológica e
por acreditar
que quem
gosta de
dípteros culicídeos é
entomologista.
Ademais, o pai
da Lu é assumido homus urbanus, cujos perfumes prediletos são asfalto e gasolina.
Seja como for, o aludido episódio serviu de leitmotiv
para que se praticasse justiça
salomônica, já
que a cada
um dos litigantes
permitiu-se ficar de
posse
de cada
lanterna
durante um
período de dez
minutos (desvio
padrão de + ou
– 1 minuto e trinta
segundos), findo os quais
deveriam trocá-las, sendo vedada a impetração
de quaisquer tipos de recursos
ou embargos.
Adicionalmente, aprenderam que não
precisavam
dar ataques
para conseguir as coisas.
Assim é que chegaram os envolvidos no
processo ao aguardado intervalo, previamente determinado pelo
supracitado vovô Bilu. A benfazeja intermitência, com duração prevista
de quinze minutos, passou-se sem maiores intercorrências, salvo a
insistência patológica de Isabela em contar a história do
Szzcheresherekksss (?!) – o que não foi permitido – e a curiosidade algo
obsessiva de Fernandinho em querer saber se o tempo do recreio já se
houvera findado. Na quinta vez em que tal redundância ocorreu,
esgotou-se a tradicional paciência do vovô Bilu, pelo que este
interpelou o menor se já aprendera a ver as horas. Afirmativa a
resposta, o complacente Bilu recomendou a Fernandinho que só voltasse a
se manifestar quando o ponteiro grande do relógio atingisse uma certa
marca. Começando Isabela a expressar idêntico comportamento e
confessando antecipadamente sua falta de intimidade com relógios,
cortou-lhe vovô Bilu resolutamente o papo, encaminhando-a ao irmão para
que este lhe ensinasse as regras do jogo. Por via de conseqüência, como
dizia Aureliano Chaves, puderam todos então desfrutar um relativo
descanso.

Epílogo
1º. Ato: Isabela volta à carga
Recarregadas baterias e pilhas
internas, Isabela avocou-se o direito
de
contar a história
do personagem dantes mencionado.
Honrando o compromisso,
concedeu-lhe vovô Bilu a palavra,
sucedendo-se um
surrealista
diálogo: “Se ‘focê’ ‘ plestá’
atenção, ‘focê’ não
‘fai’ ‘plestá’ atenção”. Surpreendido por
tão
desconcertante
proposição filosófica, obrigou-se vovô Bilu a intervir,
interrompendo a oradora: “O que você está dizendo
constitui um
paradoxo. É necessário
respeitar os
paradigmas”.
Creio que vovô Bilu se
excedeu na dose,
pois
julgou translumbrar discreta nuvem
de fumaça escapando da cabecinha
da infanta, que,
ato
contínuo, ligou
suas
quatro turbinas:
“Fofô Bilu, num quelo sabê de p’aladoxxxcssiuss
e taladigmss!”
Não
fora
vovô Bilu
suficientemente
safo, deixar-se-ia
engrupir pela
superlativa irritação
da menor.
Destarte, cortou-lhe o discurso:
“suas convicções
filosófico-metereológicas se apóiam num total
desconhecimento da
política
cacaueira
internacional, o que
me
leva ao corolário
de que ‘focê’ tem
toda
razão!” No
que
a peralvilha exclamou “han?!”, o sábio geronte engrenou uma
segunda
e encarregou-a da tarefa de
certificar-se se ele se
encontrava na esquina, do que
a menor incumbiu-se incontinenti,
informando-o logo
depois
que lá
ele não
estava, posto
que
no escritório permanecera.
Perceba o atento leitor, pelo presente exemplo, quão importante é o conhecimento
da física quântica (V. Niels
Bohr et alii.), da teoria
das múltiplas possibilidades e do princípio
da incerteza de Heisenberg na educação e orientação
de petizes e –
por
que não
dizer? – de canídeos.
2º. Ato:
Grand Finale
Transcorrido, pois, mais algum tempo de folguedos pedagógicos
– em que
o único
fato
relevante foi a
aplicação
prática e eficaz
de pesquisas das neurociências em Isabela* -, chegou
finalmente
o provedor, ao
qual
foi feito
um
sucinto relatório
dos sucedidos.
Nada
mais
havendo a declarar, Bilu – no
limite
da exaustão –
ainda
teve ânimo para
acompanhá-los à viatura, trocando juras de amor eterno, viatura
esta cujo
rádio
esbanjava decibéis de algo híbrido, similar
ao HipHop, Diskô ou
Dance. Ativado,
então, seu
DNA melódico, entregou-se o vovô
Bilu a caprichada e criativa coreografia, o que
resultou num frouxo de
riso
dos gremlins, que,
segundo relato
posterior
da genetriz, chegaram a urinar nas roupas íntimas, depois
do que entraram
em
transe sonambúlico.
Depois
de pleonásticos adeuses à distância,
e fechado o portão
eletrônico,
vovô Bilu desfrutou, então, um
merecido desmaio.
(*) Num dado
momento
(creio que
quando
comecei a explicar-lhe a teoria
das cordas e a constante de Planck), Isabela entrou em pânico,
pôs-se em
desabalada
carreira, terminando por embocetar-se no solo,
o que resultou num
pequeno
galo na região
temporoparietal direita, e numa sinfonia irritante e
dissonante
de urros,
guinchos
e bemóis. Baseado nos
já descritos
experimentos
da neurolingüística insisti para que olhasse para cima, o que imediatamente bloqueou o
circuito
neurocinestésico e, conseqüentemente
o pranto. O diabo é que, com a natural dispersão
de foco
infantil,
logo voltava a olhar
para baixo, o
que – reativando o
circuito
– a levava a reincidir no
pranto
em altos
brados. Com
a persistência dos
cientistas,
todavia, logrou
vovô
Bilu o seu
intento, comprovando-se a referida
tese, depois de uma sucessão
de choro – “olha
pra cima”
– silêncio – olhava pra baixo – recomeço do choro,
etc “, ou seja:
pi= 3,14... (dízima periódica)”.
Brasília, 12 dezembro 2006