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Requiem aeternam dona eis Cumpro o solitário e doloroso dever de participar a morte de um dos meus melhores amigos, uma das figuras mais inteligentes, generosas e requintadas com quem tive o privilégio de conviver nestes últimos sessenta anos. Quando o conheci, ainda um comovente bebê de quase três anos, tinha olhos e cabelos azuis. Lu, minha filha, sabendo do imenso vazio que me causara a morte recente de Maria José, convenceu-me a adotá-lo. Hoje, melancolicamente me pergunto se não foi ele quem me adotou. Foi difícil, às vezes desesperadora, a nossa adaptação. De um lado, estava eu, que perdera uma das mais importantes referências de vida, carente de consolo e colo, procurando reunir as partes da minha vida esbodegada, sem saber sequer por onde começar. De outro, um pequeno ser, que ignorando meu sofrimento, me exigia presença e afeto em tempo integral. Não lhe bastavam carinhos por pessoas interpostas. Não lhe satisfaziam amores por procuração. Dispensava intermediários. Queria-me a mim para aplacar a sua fome egocêntrica de atenção. E, se não a obtinha, traduzia sua revolta de forma desvairada e anti-social. Releve-se tal comportamento pela sua pouca idade. A adolescência, acreditamos, é uma fase nevrálgica e obrigatória na cultura ocidental. Obedecendo ao determinismo genético da sua origem nórdica, logo adquiriu compleição de um adulto atlético, que contrastando com sua progressiva instabilidade emocional, levou-me à drástica decisão de entregá-lo aos cuidados de um especialista. Para não expulsá-lo de casa. Tornara-se uma ameaça potencial. Um estorvo. Voltou pior. Criava-me toda a sorte de constrangimentos, destratando e desafiando os serviçais, que com razão se queixavam. Considerava-se o dono do mundo, o dono da casa, onde eu me tornara mero comodatário. Abusava da minha complacência, confundindo amor e tolerância com temor e covardia. Um dia me ofendeu diretamente. Em público. De forma desmoralizante. Foi a gota d’água. Curioso como o óbvio amiúde se oculta, só se revelando em inusitadas ocasiões, como a citada. Naquele momento – e só a partir daquele momento – me lembrei da minha ampla experiência como “ajudador de pessoas”. Por estar de mim tão perto não me ocorrera que poderia compreender e auxiliar um amigo. Nem se aleguem supostas razões éticas que impediriam cuidar de alguém tão íntimo. O modo como trabalho dispensa, com freqüência, o cliente de detalhar os seus problemas e, até mesmo, de se expressar verbalmente. Fantástica recuperação. Liberto dos “fantasmas” que o bloqueavam, revelou-se a sua verdadeira personalidade. Gentil, carinhoso, amigo e tolerante. Seus progressos foram exponenciais. Dotado de inteligência eclética, rapidamente aprendia o que quer que fosse e, como se quisera remir as injúrias do passado, antecipava-se aos meus pensamentos, tudo fazendo para me agradar. Para quem conhecera seus truculentos antecedentes, tornara-se outra pessoa. E assim, ingressou na juventude e na maturidade. Sofisticado, corajoso, amigo incondicional, dispensávamos palavras em nossos intermináveis colóquios: “tocávamos de ouvido”. Diga-se que à elegância de gestos somava-se um porte impressionante, realçado pelos primeiros fios grisalhos na barba e nos cabelos azuis. Belo exemplar da raça não negou seus antepassados dinamarqueses. Casou-se (fui seu padrinho) com uma exuberante e mais jovem compatriota. Tiveram uma prole nordestina. Infelizmente, foram-se todos. Surpreendentemente para mim, embora já o soubesse equilibrado, aceitou filosoficamente o sucedido, apesar do sofrimento. Na penúltima noite do ano passado, enquanto sorvia uma taça de Don Perignon rosé para aumentar minha inspiração numa crônica de fim de ano, entrou no meu escritório. Extremamente requintado, portava uma taça de fino cristal contendo um encorpado tinto italiano (a única bebida alcoólica que se permitia degustar e em ocasiões especiais; afinal, era um atleta). Olhou por cima dos meus ombros o que já escrevera na tela do computador, meneando a bela cabeça num sinal de aprovação. Depois de um silencioso brinde, despediu-se com um discreto sorriso, beijando as minhas mãos. Tive a impressão de que queria me revelar alguma coisa, mas se arrependera. Pensei que se tratasse de algo referente ao casamento. Na verdade, confessei aos meus botões, dele é tão diferente a sua companheira. Embora dotada de extraordinária beleza e no verdor da juventude, parece-me menos do que ingênua. Infantil. E se contenta com qualquer cerveja alemã, mesmo em copo de geléia, concluí sorrindo. Os inúmeros compromissos familiares, sociais e os projetos profissionais de um novo ano só permitiram que percebesse alguma coisa estranha nos meados de fevereiro: apesar de saudável apetite, emagrecia. Logo, o pior se confirmou. Um câncer no baço, já com metástases no fígado. Inoperável. Rádio e quimioterapia? Praticamente inúteis, segundo três opiniões, ao lado de prováveis e indesejáveis efeitos colaterais. Não vou prolongar meu sofrimento ao lembrar detalhes daquela perda que se avizinhava, ao recordar meu luto antecipado. Apenas digo que nos tornamos cada vez mais próximos. Tudo era pretexto para falar com ele, tê-lo em meu escritório – o que sempre apreciou -, acariciá-lo. Às vezes, tinha a convicção de que se recuperaria. Fora o emagrecimento parecia gozar de boa saúde. Com o contínuo uso de analgésicos chegou a recobrar o saudável apetite. Sexual, inclusive. Reaprendi a rezar, cheguei mesmo a pedir aos amigos que num certo dia e data, independentemente de suas crenças (ou falta de), a ele dedicassem uma oração. Atenderam. Gostavam muito dele. Mais até do que de mim, eu penso. E com razão. Os últimos exames revelaram brutal agravamento, que logo deram lugar à anorexia progressiva, à pronunciada abulia, aos sintomas e sinais da inexorabilidade da doença. E assim, numa noite, voltando de um compromisso, encontrei-o já sem vida. Acariciei seu corpo já frio, falei com ele, cobri-o com uma manta. Como não era político, não fez questão de coincidir seu passamento com o 21 de abril, dia do seu aniversário, quando se comemora o aniversário de Brasília, a data de Tiradentes. Cumpro, então, o doloroso e solitário dever de participar a morte de um dos meus melhores amigos, uma das figuras mais inteligentes, generosas e requintadas com quem tive o privilégio de conviver nesses últimos sessenta anos. Morreu Herr Tiny II Blue Chaski Del Inca. Morri um pouco. Como disse a raposa ao Pequeno Príncipe sobre a sua rosa, para mim, entre tantos e tantos outros, ele era único, pois ele me cativou. Requiescat in pace. PS: Muito obrigado, Joceli. Do fundo do coração. Pelas suas palavras amorosas, pelo seu generoso colo numa tarde de março, quando meu cálice transbordou. Brasília, 26 de abril de 2006 (aniversário de Maria José).
Publicado: 27.04.2006 © Nelson Marins
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"Olhou por cima dos meus ombros o que já escrevera na tela do computador, meneando a bela cabeça num sinal de aprovação. Depois de um silencioso brinde, despediu-se com um discreto sorriso, beijando as minhas mãos."
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