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Ontem, ocorreu um fato que, como diria Cony, me causou reflexão e melancolia. Estava no meu quarto, quando percebi um trinado que jamais ouvira: forte, contínuo, harmônico. Mesmo não sendo do ramo, imaginei que o autor da façanha teria um porte correspondente, o que não pude comprovar na hora, já que o artista se encontrava fora do meu campo visual. Logo depois, entretanto, um passarinho pousou na janela. Pequenino, frágil, nem por isso temeroso. Pousou e – acreditem-me – começou a me encarar, com curiosa intimidade, num à vontade e numa sem-cerimônia cativantes. E assim permaneceu, mesmo quando ensaiei cautelosos passos e canhestro chilrear. No momento em que decidiu, voou. Para voltar novamente, reiniciando o ritual. Um pensamento surrealista me assaltou. Seria Maria José?
Maria José era fascinada por pássaros. Tão fascinada que, toda vez que os via – exceto os mais redundantes –, insistia em me chamar atenção para que compartilhasse do seu deslumbramento. Quantas vezes me fez dar voltas e mais voltas com o carro para melhor observá-los, eis que nenhum escapava à acuidade da sua visão seletiva. Fazia-lhe a vontade, pois – mais do que o espetáculo das aves, muitas vezes aos bandos – me encantavam a sua curiosidade e entusiasmo de criança descobrindo o mundo.
Desde que mudamos para o Lago, num longínquo Dia dos Namorados, despertávamos com uma verdadeira sinfonia de pardais. Bem-te-vis e pássaros pretos chegavam mais tarde, no final da manhã, às vezes juntos. Seu expediente terminava pouco antes do pôr do sol, sendo substituídos por rolinhas e por esquadrilhas de periquitos voando alto numa alegre algaravia.
Hoje o mesmo acontece, embora com menor freqüência. Pardais e periquitos tornaram-se bissextos. Bem-te-vis e rolinhas ainda resistem. As rolinhas e os pássaros pretos parecem discordar dos desmandos demagógico-ecológicos dos governos de Brasília. Eles formam, com os bem-te-vis, o núcleo de resistência à estupidez e à insensibilidade governamentais.
Por merecimento, lembro-me também de outro pássaro até hoje não identificado, atrevido menestrel no seu cantar, britanicamente pontual, que surge de agosto a outubro para nos encantar com prolongados, contínuos e melódicos concertos. Após esse período viaja, voa, só retornando no ano seguinte. Ao contrário de Maria José, que se foi para nunca mais voltar.
P.S.: O passarinho em epígrafe, por quem senti tanta ternura, apareceu mais uma vez. Infelizmente não o vi. Contou-me a governanta que depois de divertida incursão ao banheiro da suíte, deixou duas “mensagens” irreverentes em minha cama. Era Maria José.
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