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Quando você pensa que o outro está pensando que está entendendo exatamente o que você está dizendo e quando o outro pensa que você está pensando que está entendendo exatamente o que ele está dizendo.
Este intróito, emérito leitor, demonstra que a linguagem serve tanto para criar realidade, quanto para distorcê-la. Se eu disser, por exemplo, que hoje pela manhã vi uma esquadrilha de periquitos voando, todos acreditarão. Já, se eu substituir os psitacídeos por gatos, os ouvintes pensarão que estou brincando ou duvidarão da minha sanidade mental, pois felinos voadores não fazem parte da nossa realidade compartilhada. Há exemplos mais sutis: suponhamos que eu afirme que “o gato não está atrás do cachorro”. Para você compreender o significado do que ouviu (ou do que leu), terá que visualizar mentalmente onde o gato está em relação ao cachorro – à direita, à esquerda, à frente, ao lado, em cima ou embaixo e, às vezes, até mesmo atrás. Se duvidar, experimente. O não está (que “traduz” uma não experiência, uma experiência que não aconteceu) só “existe” na linguagem falada ou escrita, não ocorrendo na realidade que compartilhamos. Vamos, portanto, às principais diferenças entre realidade e descrição da própria, via linguagem.
Os seres humanos interagem diretamente com a realidade, certo? Certo, responder-me-á o inocente leitor.
Errado, retorquirei eu. A nossa interação com a chamada realidade, ambiente ou mundo externo só é viável indiretamente. Ou seja, o que o alucinado leitor vê, ouve, sente, cheira ou degusta não é a realidade real, a realidade verdadeira. Como, doutor Caldas, você está debicando da minha integridade mental? Não, iludido leitor. Estou duvidando da sua (e da minha) capacidade de percepção. E demonstra-lo-ei, em seguida, de forma tão singela que até os políticos e governantes conseguirão entender.
Os humanos percebem a chamada realidade compartilhada através dos seus órgãos sensórios. Entretanto, tais percepções são deformadas por três conjuntos de filtros ou restrições: neurológicas, socioculturais ou sociolingüísticas e das experiências individuais. Co’os diabos, imprecará o cartesiano leitor, o quê tais vitupérios significam?
Significam, ab initio, que nossos órgãos dos sentidos são, na melhor das hipóteses, modestos. Comparemo-los aos de humildes animais. Corujas e cobras têm visão infravermelho, o que lhes permite enxergar à noite e a longa distância suas futuras refeições. Enquanto você, meu caro Braille, cadê a coruja? Se eu sopro um tipo especial de apito não ouvirei nada, mas, depois disto aparecerão diversos canídeos balançando os rabos, eis que perceberam o que você não ouviu, querido Beethoven. Os mesmos canis familiaris são dotados de um olfato digno de inveja dos mais famosos perfumistas, ao passo que modestos eqüinos possuem um paladar mais apurado do que o dos mais refinados enólogos. Tubarões são considerados bichos muito burros. Todavia, possuem aparatos sensórios nas laterais do corpo que lhes permitem captar vibrações produzidas no mar, a quilômetros de distância, por nós outros, os reis da cocada preta, que assim somos incorporados ao seu cardápio. Enquanto isto, você, manhã de sol, um céu azul, um barquinho a deslizar, num deslumbrante domingo de verão, sua sogra nadando cachorrinho ao seu redor. Posto quatro e meio transbordante, patuléia conversando coloquialmente aos berros, como só brasileiro sabe fazer. Num átimo você se distrai, observando o deslumbrante espetáculo da coisa mais linda, tão cheia de graça, de corpo dourado a caminho do mar. Neste momento, a anciã se afoga e, pela azáfama descrita, você não consegue ouvir os seus borbulhantes helps nem sentir seu desesperado espadanar. Das duas uma, distraído e insensível leitor, ou a macróbia se safa sozinha ou você terá que explicar à neo-órfã como a tragédia aconteceu, debaixo das suas barbas, sem que você a notasse.
Tem mais? Tem sim, educável leitor. Além da desfavorável comparação com os sentidos dos irracionais, há microscópios, telescópios, televisores, rádios, celulares, faxes, computadores e sismógrafos que registram e nos permitem ver, ouvir e sentir fenômenos de outro modo imperceptíveis à nossa vã neurologia. Pelo exposto, os filtros neurológicos funcionam como o primeiro par de lentes invisíveis que altera tudo que os nossos órgãos dos sentidos são capazes de captar. Entendeu agora, recuperável leitor? O fato de não vermos, ouvirmos, sentirmos, cheirarmos e degustarmos um monte de coisas não quer dizer que elas não existam, que não sejam reais, e sim que somos todos relativamente deficientes.
Os filtros socioculturais ou sociolingüísticos constituem o segundo par de lentes transparentes que também modificam nossas percepções. Como membros de uma dada comunidade estamos condicionados, através de códigos, sejam eles explícitos, sejam não escritos, a responder às expectativas daquele grupo social. Como resultado, fazemos certas coisas e não fazemos outras, aprendemos o que é permitido, incentivado, aplaudido, proibido, o que é importante ou irrelevante. Estes filtros, apesar de adquiridos, são tão intensos que interferem em nosso foco de atenção, levando-nos a distinguir (e a excluir) fenômenos presentes no chamado mundo real.
Consideremos um esquimó da Groenlândia, Ele possui cerca de trinta palavras para designar o fenômeno que nós denominamos simplesmente de neve. Será que eles têm u’a maior acuidade visual que a nossa? Não, porque muitos de nós temos uma visão 20/20. Sim, porque – por uma questão de sobrevivência – eles aprenderam a distinguir os vários tipos de neve: a que serve para construir iglus, a que serve para beber, para cavar e pescar peixes e focas, a que afunda etc. Agora, deixe esse mesmo esquimó na Avenida Atlântica, na Paulista ou no Lago Sul para observar os diferentes modelos e marcas de carros. Modelos, marcas? E por falar em esquimós, turístico leitor, como interpretar a reação dele ao se sentir ofendido porque você – seu hóspede – se recusou a dormir com a mulher dele, que a ofereceu como prova de elevada estima e alta consideração? E que dizer do fato de que se você viajar no mesmo dia para certos países árabes poderá vir a ser morto ou agredido pelo pai ou irmão de uma jovem solteira, se a olhar fixamente nos olhos por um lapso de tempo ligeiramente superior ao convencionado pela cultura local? Quem está certo: o esquimó, o árabe ou você, leitor estróina?
Como se não bastasse o supra relatado, as experiências individuais representam o terceiro conjunto de lentes invisíveis, que, igualmente, alteram nossas percepções. Imagine, leitor, dois gêmeos univitelinos, monocoriais (idênticos), no esplendor da infância. Um dia, um deles em companhia de mamã e babá (não é o deputado que vai ser expulso porque denunciou a nudez do rei), encontra-se no jardim e, ao acuar inadvertidamente uma aranha, é picado pelo inseto. A dor, a surpresa e o escarcéu por parte da sua genetriz e da secretária do lar são receitas proficientes para condicionar uma fobia. Daí em diante, o nosso peralta passará a expressar sempre a mesma reação de pânico ao se defrontar ( ou mesmo pensar) com qualquer aracnídeo. Ao mesmo tempo, o outro irmão está no banheiro, exonerando seus pequenos intestinos, quando tem sua atenção despertada por um inseto gozado. Curiosamente o observa: tem pernas demais, corre e pára em espasmos, como se fora alimentado por uma corrente alternada, é tímido e aveludado ao tato (esta casa está precisando de uma dedetização). Cresce o petiz, e se transforma num biólogo ou zoólogo e vai trabalhar no Butantã.
Nossa neurologia, cultura e experiências individuais filtram, portanto, um número infinito de fenômenos visuais, auditivos e cinestésicos, de modo que o pouco que sobra já não é mais o mundo real. E o pouco que resta ainda sofre a ação dos três mecanismos universais de modelagem – a generalização, a omissão ou eliminação e a distorção –, de sorte que o resultado é uma pequena gota, que chamamos de consciência, e que pretensiosamente acreditamos ser a única consciência possível. Em outras palavras, percebemos o mundo externo por meio dos nossos sentidos. Mas a massa avassaladora dos mais diversos estímulos é reduzida pelos três conjuntos de filtros adrede mencionados. O produto é ainda influenciado por processos com os quais criamos modelos da realidade. Assim, quando nos referimos ao mundo externo estamos, na verdade, expressando os nossos mapas de realidade.
Todas as nossas experiências, isto é, tudo aquilo que acontece conosco, representam a realidade “real”, mas não a são. São representações, modelos ou mapas da própria. De todas as experiências que vivemos, as que garantem a nossa sobrevivência, as mais úteis, as mais freqüentes, as mais dolorosas e as mais prazerosas recebem um rótulo linguístico: as palavras. Logo, as palavras são um modelo ou mapa do nosso modelo de mundo ou de realidade. São um metamodelo com o qual representamos – para nós mesmos e para os outros – as nossas experiências. E é aí que começa a encrenca, porque as palavras não têm um significado intrínseco, elas não são as experiências que descrevem. O quê, doutor Marins? As palavras não são as experiências que elas descrevem? Não, ingênuo leitor, não são. É por isto que se um nativo lhe diz “xxxspktqpaarilll knvrsssommm xuaxuamntoba (“oi”, no dialeto da Velha Guiné), você não responde corretamente “xvptzz”, ou seja “prazer em vê-lo, meu amigo, um bom dia e recomende-me à sua senhora e aos seus”. Ora, bolas. O significado das palavras é aquele que os grupos socioculturais convencionaram o quê elas significam. Ao fim e ao cabo, as palavras servem como uma âncora para permitir que determinadas experiências aflorem à consciência, em detrimento das outras, nem mais nem menos. Como não há dois mapas de realidade exatamente iguais, e um dos componentes daqueles são as experiências individuais, você já viu o rolo em que vai se meter se não aprender o metamodelo da linguagem. Caso contrário, você e sua mulher estarão condenados a fazer terapia a vida inteira numa discussão interminável para saber se amor quer dizer dependência ou independência, se respeito significa olhar em direção aos olhos do interlocutor, ou olhar para baixo enquanto ele fala e assim por diante.
Um dos mais importantes objetivos da psicoterapia é compreender o comportamento humano. Tal comportamento, embora complexo, é regido por regras. O estudo mais sofisticado do comportamento humano governado por regras é o dos sistemas de linguagem. Inicialmente um grupo de lingüistas – os gramáticos transformacionais – pretendeu estudar a linguagem de uma forma abrangente. A tarefa logo se mostrou impossível, dado o número infinito de sentenças com as quais se poderia descrever as experiências humanas. Entretanto, perceberam que as formas (sintaxe) de descrevê-las eram comparativamente restritas, isto é, estas formas tinham estrutura. Por exemplo, experimente, caro leitor, inverter a presente frase. Frase presente a inverter, leitor caro, experimente, exemplo por. A primeira sentença está bem estruturada gramaticalmente e, conseqüentemente, tem um significado, ao contrário da última. Em decorrência destas evidências, os lingüistas transformacionais construíram um modelo do modelo da linguagem, o metamodelo da linguagem.
Richard Bandler e John Grinder, os fantásticos criadores da Programação Neurolingüística, adaptaram este modelo ao contexto terapêutico (e a inúmeros outros, como a comunicação, ensino e aprendizagem). Desta forma, usaram a linguagem de um modo específico para esclarecer o significado da linguagem. Em resumo, todos nós, caro leitor, temos um número ilimitado de palavras para expressar verbalmente nossas experiências (modelos de mundo) armazenado em nossa mente inconsciente (estrutura profunda). Quando falamos, costumamos usar uma estrutura mais simplificada (estrutura superficial) e, para tal, recorremos novamente aos mesmos processos de generalização, eliminação e distorção. Estes mecanismos são, em si, neutros. O problema é quando você passa a generalizar, eliminar ou distorcer de mais ou de menos. Nestas condições, as palavras se afastam demasiadamente das suas experiências, o que determina perda de informações cruciais, o que limita o seu modelo de realidade, tornando sua vida mais difícil. E como saber que isto está acontecendo? Prestando atenção nos apontadores de precisão ou padrões do metamodelo e, em seguida, desafiando-os com as doze perguntinhas especiais.
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