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O PENSAMENTO POSITIVO DO DOUTOR DRaUZIO VARELLA

                                           

Nãonada permanente, exceto a mudança.

Heráclito de Éfeso (540 a.C.- 470 a.C.).

 

 

 Em entrevista recente no programa do Jô Soares, o doutor Drauzio Varella deblaterou contra o tal do pensamento positivo, ao qual muita gente atribui verdadeiros milagresmáxime na cura, melhora e prevenção de doenças graves.

 

Antes de discutir, definamos nossos termos, como lembrava Voltaire. Afinal, o que é o pensamento positivo? Aliás, antes que o definamos, o que se entende por pensamento?

 

Simplificando algo tão complexo, e à falta de melhor definição, podemos considerar o pensamento como um monte de representações mentais, de imagens, sensações e sons internos, com os quais expressamos o que vemos, ouvimos e sentimos no chamado mundo real. E geralmente, sem o percebermos conscientemente. E não importa se os eventos estão ocorrendo no momento presente, se aconteceram, ou se ainda não se realizaram. E se você, gentil leitor, não entendeu ou não acredita, experimente pensar no seu cachorro latindo agora, no ano passado, ou lambendo o seu nariz amanhã.

 

No meu entendimento, o pensamento positivo é qualquer tipo de pensamento que provoca sensações e/ou sentimentos agradáveis, desejáveis. Em contraposição, o pensamento negativo é o que causa percepções desagradáveis, indesejáveis.

 

Mas, afinal de contas, o que é que tem a ver a extremidade distal do reto com a parte inferior da indumentária masculina, imprecará o impaciente leitor? O pensamento positivo funciona ou não funciona?

 

Modus in rebus, diria Horácio. Se você tem um pensamento eventual, transitório, não importa se consciente ou não, a conseqüência é irrelevante. Agora, se se trata de um padrão, de pensamentos repetitivos mesmo que inconscientes, , meu amiguinho, o buraco é mais em baixo, queum monte de pesquisas científicas que confirmam tal assertiva.

 

Mas como é que uma coisa tão intangívelmormente quando não percebida conscientemente – pode influenciar a saúde e a doença, o sofrimento e a alegria até que a morte nos separe? Elementar, meu caro leitor. É que essas coisas intangíveis, como pensamentos, sentimentos e emoções funcionam como estímulos que afetam a nossa fisiologia. Ditos estímulos são codificados e decodificados por uma parte do cérebro – o sistema límbico – que manda o sistema neuroendócrino liberar hormônios e neurotransmissores na circulação do sangue, distribuindo-os por cada órgão, cada tecido, cada célula, até cada molécula do seu DNA, sim, senhor. E assim, o seu organismo se prepara, se adapta, para reagir de forma consuetudinária. Mesmo (e principalmente) quando você, leitor inocente, não está nem , com a sua cara de paisagem.

 

 

Voltando à vaca fria: como é que pensamento não funciona? Funciona, sim, senhor! Evidente que pensamentos eventuais terão conseqüências idem, praticamente imperceptíveisembora identificáveis. Agora, se os seus pensamentos constituem um padrão, um hábito, claro que a coisa muda de figura. Ou você pensa que adrenalina, noradrenalina e cortisol, de um lado, e acetilcolina, dopamina e serotonina, de outro lado, passeando permanentemente na sua circulação possam fazê-lo impunemente para a sua saúde e para as suas emoções? Se não acredita, focalize sua atenção durante trinta dias, imaginando que tem um tumor no reto. Depois, por um período semelhante, concentre-se na probabilidade de fazer a viagem dos seus sonhos, planejando detalhadamente o que precisa para materializar a sua fantasia. E depois disto me conte se houve alguma diferença ou se tudo foi igual. Não tem nada de pensamento mágico, porra nenhuma. É apenas neurociência, é apenas a sabedoria do nosso sistema MenteCorpo.

 

 

O que me causa espécie é que o doutor Drauzio Varella desconheça ou desqualifique trabalhos de cientistas tão respeitáveis, competentes e honestos como ele próprio.

 

Há uma penca de anos, David Spiegel, da Universidade de Stanford, tão ou mais cartesiano quanto o doutor Varela, irritado com essa onda de que emoções e pensamentos positivos pudessem influir na evolução do câncer, planejou um elegante trabalho justamente para desmascarar os arautos desta aleivosia. Assim, Spiegel recrutou voluntárias portadoras de câncer de mama grave. Essas mulheres não tinham um cancerzinho recente, in situ, localizado. Não! A doença era séria, com metástases para outros órgãos e/ou recidivante! O pesquisador, então, randomizou as enfermas em dois grupos para reduzir as probabilidades do acaso: todas usaram o mesmo tratamento convencional indicado. As do grupo em estudo, adicionalmente, se reuniram em sessões semanais de duas horas, durante um ano. Nestas sessões, orientadas por Spiegel, elas compartilhavam livremente suas emoções, como o medo de morrer e de sofrer, a revolta, a dor, e a tristeza. Para várias delas, aquela era a única oportunidade de fazê-lo, ante as restrições, o tabu de expressá-las em ambientes profissionais, familiares e sociais. As sessões terminavam com um período de hipnose (de Milton Erickson), procedimento que Spiegel a elas ensinou, e que repetiam em casa nos intervalos das sessões. Durante o prazo da investigação, estas pacientes se mostraram mais otimistas, mais alegres, sentiram menos dor e consumiram menos analgésicos, ansiolíticos e antidepressivos do que as do grupo controle, que apenas usavam o tratamento indicado e que não participavam das reuniões. Enfim, a qualidade de vida mostrou diferenças significantes, o que não surpreendeu o investigador.

 

Agora, o que o fez cair da cadeira é que dez anos mais tarde, ao analisar a sobrevida dessas mulheres, ele verificou que aquelas que se reuniam viveram quase o dobro das do grupo controle. Coisa que até hoje não tem acontecido com o uso isolado de cirurgias, rádio ou quimioterapias. David Spiegel é um sujeito tão sério – e, na época, cartesiano até à medula que não se conformou com aqueles achados. Enviou, então, o trabalho para uma dúzia de renomados cientistas pedindo-lhes que encontrassem algum furo metodológico. Picas! Não encontraram picas! Esta pesquisa, talvez a mais impressionante até agora na área MenteCorpo, estimulou pesquisadores independentes a reproduzi-la em portadores de câncer de mama avançado, em melanomas, na AIDS e em outras patologias graves, com resultados muito promissores. É claro, leitor, que David Spiegel mudou de opiniãomuito tempo sobre a importância do pensamento positivo...

 

 

Até relativamente pouco tempo, os cientistas juravam que o nosso sistema imunológico não se comunicava com o nosso sistema nervoso. Consideravam o primeiro um sistema fechado, anti-social, relativamente burro e serviçal do sistema nervoso. E que este era quem mantinha o controle, o todo poderoso que dava as ordens e que sabia das coisas. E esta verdade perdurou até que Robert Ader, da Universidade de Rochester, abalou a certeza absoluta dos sábios, ao fazer com humildes ratinhos o que Ivan Petrovich Pavlov o fizera com os cachorrinhos. Isto mesmo, erudito leitor. Ader condicionou os Mus musculus, condicionou os ratinhos. Tempos depois, David Felten e Suzanne, sua “senhôra”, acabaram com a alegria da rapaziada, pois descobriram fibras nervosas que ligavam o sistema nervoso ao imunológico. O gozado é que daí em diante passaram a abundar comentários do tipoEu sempre não disse que os dois sistemas eram interligados?”, “Arre! Como é que tem gente que duvidou durante tanto tempo de um troço tão evidente?”.  Deve ser por isso que a notável Candace Pert, PhD, descobridora do peptídeo opiáceo, afirma que você, viril leitor, tem muito mais neuropeptídeos nos seus testículos do que em certas áreas do seu cérebro. Daí, possivelmente, a linguagem chula empregada pela rafaméia: “Fulano pensa com os testículosouBeltrano tem os culhões na cabeça”. Médicos e cientistas são pessoas muito estranhas...

 

 

poucos anos, Richard Davidson, da Universidade de Wisconsin, conduziu uma série de investigações que demonstrava o que ocorria na cabeça de monges budistas enquanto meditavam. Com o uso da ressonância magnética nuclear funcional e de sofisticados eletroencefalógrafos, ele observou a ativação predominante do córtex frontal esquerdo durante o procedimento. Ao contrário do encontrado no grupo controle, formado por pessoas que não sabiam meditar, onde o predomínio da ativação se fazia no córtex frontal direito. Ressalte-se que em estudos anteriores, esses tipos diferentes de ativação cerebral se correlacionavam com padrões diferentes de atitudes. Os primeiros correspondiam a atitudes e emoções “positivas”: os monges são otimistas e desconhecem emoçõesnegativas”, como o ódio, o ressentimento, a inveja. a ativação do córtex frontal direito está ligada ao pessimismo, à tristeza, à ansiedade, à depressão. Para esclarecer o dilema daquela marca de biscoitos, se os monges tinham cérebrosfelizes porque meditavam ou meditavam porque tinham cérebrosfelizes”, Davidson fez outro trabalho com metodologia rigorosamente científica. Inicialmente, realizou eletroencefalogramas e estudos das imagens cerebrais em voluntários de uma empresa americana de tecnologia que não tinham experiência em meditar.Todos mostraram ativação predominante do córtex frontal direito. Além disto, colheu amostras de sangue para investigar o comportamento do sistema imunológico. Em seguida, os dividiu em dois grupos. Com o auxílio de Jon Kabat-Zinn, cobra da Universidade de Massachuttsess e um expert em mindfulness meditation, ensinou o procedimento a um dos grupos durante oito semanas. No fim desse período Davidson repetiu os exames. Sur-pre-sa! No grupo que aprendeu a meditar, a ativação mudou para o córtex frontal esquerdocomo no caso dos monges – e houve ativação do sistema imunológico. Nos participantes do grupo controle não ocorreram estas diferenças. Ora, direis ouvir estrelas.

 

um monte de pesquisas correlatas, com resultados semelhantes encontrados por outros investigadores. Diga-se que Sua Santidade, o Dalai Lama, tem dado a maior força a estas investigações.

 

Como se não bastasse, recentemente Fabiene Mackay e Herbert Herzog, pesquisadores do Instituto Garvan, na Austrália, demonstraram que o peptídeo Y tem um comportamento deveras caprichoso. Em condições normais, ele circula em pequenas concentrações na circulação do sangue. Ativa as células do sistema imunológico responsáveis pelo bloqueio de vírus, bactérias ,e do crescimento desordenado de células imaturas, do câncer. No estresse persistente, entretanto, o caprichoso peptídeo é secretado em quantidades industriais, e isto o impede de exercer as funções essenciais de um eficiente fiscal. Em outras palavras, ele entra em greve, com que o sistema imunológico se deprime, o que facilita o aparecimento de inúmeras patologias. Do resfriado comum  à gripe; destes, ao lupus e ao diabetes; daí, até à esclerose múltipla e ao câncer. Aquilo que se intuía, que era uma brilhante sacada empírica, é hoje uma explicação científica, cartesiana.

 

 

Para concluir, a idéia de que o doente é culpado pela sua doença, é uma grosseira distorção do pensamento dos Simontons, renomados pioneiros da adição dos recursos MenteCorpo na complementação do tratamento do câncer. Estes sérios investigadores nunca afirmaram que o portador do câncerou de qualquer doença gravetinha a responsabilidade consciente, e muito menos a culpa, pela própria doença. O que disseram foi que havia padrões de pensamentos, emoções e sentimentos que alteravam a fisiologia, facilitando o aparecimento e a má evolução da enfermidade. Em contrapartida, como mais tarde comprovado, poder-se-ia ensinar novos padrões ao enfermo, capazes de manter a saúde, de prevenir o surgimento da doença e de melhorar a sua evolução e facilitar a recuperação. E nunca advogaram a renúncia aos meios tradicionais de tratamento. Aliás, nas doenças graves, com a possível exceção das emergências e urgências, a primeira coisa a fazer é ajudar o paciente a trocar suas crenças, inúteis, prejudiciais e limitantes por outras, úteis e que facilitam a vida.   Quem diz o contrário não entendeu porra nenhuma ou está de má .

             

O homem sempre procurou entender os fenômenos da Natureza. Para consegui-lo a interroga. Cada análise traz um monte de respostas e de dúvidas, que provocam mais análises. Até que a síntese se faz necessária, e assim por diante. Análise e síntese são irmãs xifópagas. A ciência é tanto análise quanto síntese. A ciência, bem como a filosofia, a religião e o misticismo, é um produto da mente humana. Logo, ninguém é dono de verdades absolutas e imutáveis, científicas ou não. A realidade científica (ou de qualquer natureza) é um conjunto de conceitos consensuais, aceitos por alguns grupos, mais tarde substituídos ou simplesmente abandonados sem a menor cerimônia. Nem mais nem menos.

 

Basta lembrar que houve uma época em que cientificamente se demonstrava que a terra era plana, o sol girava em torno dela, e que a melhor receita para uma boa saúde era engolir um camundongo vivo no começo de cada mês. Depois, a maçã caiu na cabeça de Isaac Newton, Colombo, Copérnico e Galileu embolaram o meio de campo, a terra ficou redonda e passou a girar ao redor do sol. Baseado na mecânica quântica, Niels Bohr ganhou o Nobel de Física. Mas , Einstein viajou na cauda de um cometa e disse que tudo era relativo, desmoralizaram Bohr e a física quântica. Até que mais recentemente, com o advento da alta tecnologia, dos computadores e da nanologia, reabilitaram a “quântica” e o indigitado Niels Bohr. Hoje não engolimos mais camundongos para ficar saudáveis. Hoje engolimos sapos porque os políticos, governantes e juizes querem nos convencer que esta é a única opção, a única verdade, a única realidade. Mas há muitas crenças entre o céu e a terra que escapam à nossaneurologia, não é verdade, William?

 

Não fora o doutor Drauzio Varella um médico respeitável, com tanta visibilidade, deixá-lo-ia com sua crença reducionista, com seu exacerbado cartesianismo. Não foraSoares um insigne formador de opinião, uma verdadeira pessoa jurídica, não incomodá-lo-ia com nossa impertinência de cobrar-lhe o contraditório. Mas ambos têm uma enorme responsabilidade social. E não podem prejudicar -  claro que embora com as melhores das intenções - a saúde e o bem-estar de grande parte da nossa população. Que acredita firmemente, como verdades irretorquíveis, nas crenças pessoais emitidas pelo primeiro e veiculadas pelo outro.

 

 

Escrito em 18/6/2007

Publicado: 19/06/2007     

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