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Quando criança ganhei um brinquedo fascinante. Um cone tosco de papelão, cujo vértice truncado possuía um visor de vidro transparente. A base era formada por duas finas esferas, também de vidro, sendo a externa fosca e a interna, transparente. Entre as duas, repousavam inúmeros fragmentos de vidro colorido.
(Depois desta poética e saudosista descrição, minha filha disse que há incontáveis modelos – desde os mais simples até os mais sofisticados – disponíveis em feiras de artesanato e lojas de brinquedos. E que só Fernandinho e Isabela, meus netos, têm mais de seis, cada um).
Voltemos ao artefato. Cada vez que o girava apareciam belíssimas figuras geométricas coloridas, cujos padrões jamais pareciam se repetir. E o caleidoscópio era o mesmo, e os caquinhos coloridos eram os mesmos; a única coisa que mudava era a sua combinação e, conseqüentemente, a minha percepção.
Mais tarde, nas aulas de física, aprendi que o mesmo fenômeno pode ser observado de maneiras praticamente infinitas.
Porém, somente quando iniciei a minha formação de “aprendiz de curandeiro”, é que descobri que coisas semelhantes ocorriam com as nossas percepções sensoriais, emocionais e psicológicas.
Tudo muito bom, tudo muito bem. Mas qual é a verdadeira realidade, argüir-me-á o cartesiano leitor?
Retornemos ao caleidoscópio. Qual a figura verdadeira, a real, a mais real, a mais verdadeira, a realmente verdadeira, leitor ortodoxo? A primeira, a terceira ou a última que eu vi? A primeira, a quarta ou a antepenúltima que você viu? Ou a única que as ekipekonômicas (royalties para Elio Gaspari) vêem? Sim. Porque nem sempre o que eu vejo, ouço e sinto é o que o outro sente, vê e ouve. Aliás, minhas próprias percepções poderão variar em circunstâncias diferentes. Como as suas, eclético leitor.
Então, a resposta à questão é: todas. Porque só podemos perceber o que podemos perceber. Dizer que todas as figuras – como os modelos de mundo – são reais não significa dizer que todas as representações da realidade são úteis e que funcionam.
Pelo já exposto, considero o caleidoscópio uma excelente metáfora da realidade, da vida, do mundo externo, do ambiente e dos nossos pensamentos, sensações e percepções – o nome, você escolhe. E, igualmente, um extraordinário modelo para praticar a medicina e a psicologia, escrever artigos, livros, crônicas, atender clientes, fazer conferências, orientar workshops e o diabo a quatro.
E daí, perguntarão os idiotas da objetividade? Daí, respondo, que costumo usar uma comunicação mais holográfica do que linear. Se dá para explicar melhor? Dá sim, obtuso leitor. Isto significa que uso menos o raciocínio linear (com início, meio e fim definidos) do que o holográfico (em que não há tais distinções).
E não é assim que funciona o nosso pensamento na maior parte do tempo em cada dia da nossa vida? Na maioria das vezes estamos ligados ao “piloto automático”, em transições frenéticas do presente para o futuro, deste para o passado, em infinitas combinações. E, geralmente, de forma involuntária e inconsciente, sem prestar atenção. O pensamento linear, lógico, cartesiano, racional é exceção. E a consciência é um fenômeno limitado: só conseguimos focalizar qualquer coisa durante cinco a nove minutos. E olhe lá.
Portanto, o pensamento habitual é caótico!
Mas não se desespere, desesperado leitor. Nem tudo está perdido. Reze e aprenda a usar a óptica do caleidoscópio. Além disto, sabemos hoje que o caos não é tão caótico quanto se pensava. Mas isto é assunto para uma outra conversa.
29.9.2005
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...os modelos do mundo, que são criados por cada um de nós serão...diferentes. Richard Bandler & John Grinder, A estrutura da Magia - I
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